A LEI DA DUPLA REFERÊNCIA
ESTUDOS
EM
HERMENÊUTICA BÍBLICA
Ou, Leis Básicas de Interpretação da Bíblia
Pr. Davis W.
Huckabee
Muitas vezes ocorre que
determinada passagem das Escrituras pode ter uma referência dupla, uma imediata
e local, e a outra profética e bem distante. Quando tal é o caso, há grande
confusão se não reconhecemos isso e não levamos em consideração o aspecto
profético da dupla referência. De maneira semelhante, já aconteceu às vezes que
indivíduos recusaram aceitar a referência imediata e local, mas afirmaram que a
referência só trata do lado profético e distante. Ao fazerem isso, eles foram
capazes de ser indiferentes à sua própria responsabilidade no assunto. Assim
foi nos dias de Ezequiel, pois ele foi comissionado para dizer aos israelitas: "Filho do homem, eis queos da casa de Israel dizem: "Filho do homem, eis que os da casa de
Israel dizem: A visão que este tem é para muitos dias, e ele
profetiza de tempos que estão longe. Portanto dize-lhes: Assim diz o Senhor
DEUS: Não será mais adiada nenhuma das minhas palavras; e a palavra que falei
se cumprirá, diz o Senhor DEUS". (Ezequiel 12:27-28)
A Lei da Dupla
Referência é simplesmente o reconhecimento de que o cumprimento de determinada
passagem das Escrituras pode não ter esgotado seu significado, mas que pode
haver um cumprimento maior e posterior da passagem. Isso não é raro nas
Escrituras, mas aparece numerosas vezes tanto no Antigo quanto no Novo
Testamento. Isso se aplica tanto a eventos quanto a pessoas, pois as pessoas
são muitas vezes tipos e representações de pessoas. Quem, por exemplo,
imaginaria que havia algo mais do que uma referência imediata e local para
Isaías e seus filhos na declaração de Isaías 8:18: "Eis-me aqui, com os
filhos que me deu o SENHOR, por sinais e por maravilhas em Israel, da parte do
SENHOR dos EXÉRCITOS, que habita no monte de Sião". (Isaías 8:18) No entanto,
essa declaração é citada em Hebreus 2:13 como se referindo a Cristo e Seus irmãos. Isso é simplesmente um exemplo de Dupla Referência, e onde
isso não é levado em consideração, o resultado pode ser confusão, e pode haver
uma incapacidade de receber toda a verdade. Essa Lei explica muitas referências
no Antigo Testamento como tendo um sentido e aplicação duplos. Sem dúvida,
assim como algumas pessoas do Antigo Testamento prefiguravam Cristo, de modo
semelhante pessoas que há muito tempo deixaram de existir prefiguram o
Anticristo em alguns lugares.
Essa Lei se encontra
principalmente nas partes proféticas da Palavra, pois a profecia é muitas vezes
apresentada figurativamente em alguns eventos locais. Tal caso é aquele que se
acha nas predições de nosso Senhor sobre a destruição de Jerusalém, que veio a
ocorrer no ano 70 d.C., que prefigura a invasão final da Terra Santa por
exércitos do Anticristo, e a Grande Tribulação que então sobrevirá. Isso em nada
diminui o cumprimento imediato e local, nem diminui em nada o pleno sentido e
força da profecia em seu primeiro cumprimento. No caso da destruição de Jerusalém
em 70 d.C., a profecia se cumpriu literalmente, e incontáveis milhares de
judeus foram mortos do modo mais cruel e bárbaro que dá para imaginar. Mas esse
cumprimento não esgotou a profecia, pois o Livro de Apocalipse, que foi escrito
depois desse evento, ainda aguarda uma matança terrível de judeus e gentios,
que reduzirá a população deste planeta à quase metade.
Jesus declarou que "naqueles
dias haverá uma aflição tal, qual nunca houve desde o princípio da
criação, que Deus criou, até agora, nem jamais haverá". (Marcos 13:19) Isso é,
a Grande Tribulação será um tempo de aflição que não tem paralelo na história,
e do qual, em matéria de terror e selvageria, outros eventos não chegarão nem
perto, de modo que é evidente que a destruição de Jerusalém não esgotou essa
profecia. Desde então, já houve vários eventos que ultrapassaram em terror a
destruição de Jerusalém. Por isso, o cumprimento final da profecia de Jesus
ainda vai vir.
Muitos
pensadores
liberais e modernistas se equivocam porque, por negligência, não levam
em
consideração essa Lei da Dupla Referência na interpretação da Bíblia.
Pois
muito mais que freqüentemente eles procuram um cumprimento imediato e
local de
certas profecias, e quando essas não se cumpriram literalmente no tempo
designado
por esses indivíduos que se julgam especialistas na arte de interpretar,
eles
as explicam como falhas por parte de Deus. Pedro falou desses zombadores
em sua
época: "Sabendo primeiro isto, que nos últimos dias virão
escarnecedores,
andando segundo as suas próprias concupiscências, e dizendo: Onde está a
promessa da sua vinda" Porque desde que os pais dormiram, todas as
coisas
permanecem como desde o princípio da criação". (2 Pedro 3:3-4) Um número
muito grande de pessoas quer fixar uma data final para Deus, e se Ele
não cumpre Sua
palavra bem na computação trivial determinada por eles, eles presumem
que Ele
falhou, ou então que Ele é incapaz de manter Sua palavra. Ou, eles
poderão
considerar algum cumprimento imediato e local " um que talvez seja
apenas um cumprimento
parcial " e achar que nada mais poderá vir da profecia. Mas na
interpretação da
Bíblia, seria melhor que nos lembrássemos de uma das leis básicas da Lei
da
Dupla Referência, que tem abertura para o cumprimento de uma profecia
muito mais
plena e mais tarde.
No começo deste capítulo,
citamos o caso dos israelitas rejeitando a aplicação imediata e local de uma
profecia, mas ainda mais comum é a aceitação da referência imediata e local e a
negligência do cumprimento mais pleno e distante. Os escarnecedores mencionados
acima manifestariam sabedoria muito maior se prestassem atenção ao aviso de
Habacuque 2:2-3: "Então o SENHOR me respondeu, e disse: Escreve a visão e torna
bem legível sobre tábuas, para que a possa ler quem passa correndo. Porque a visão
é ainda para o tempo determinado, mas se apressa para o fim, e não enganará;
se tardar, espera-o, porque certamente virá, não tardará". (Habacuque
2:2-3) Essa profecia se aplica à vinda de Cristo em Seu segundo advento em
Hebreus 10:37 em que esses versículos são citados em parte nesse contexto. É
evidente, pois, que essa profecia tinha uma dupla referência.
Muitas
profecias têm
essa característica. Alguém assemelhou essas duplas referências, e o
fato de
que até mesmo os próprios profetas às vezes não percebiam seu duplo
significado, à pessoa que observa montanhas. Essa pessoa vê só uma
grande e
elevada cadeia de montanhas sem discernir que há um vale amplo entre as
montanhas da frente e as que ficam mais ao fundo. Até mesmo muitas das
profecias da vinda de Cristo têm parte nessa natureza dupla. Uma das
melhores
ilustrações disso se vê na profecia de Isaías 61:1-3, que mistura
elementos de ambos os Adventos de Cristo, transformando-os num só evento
aos
olhos do profeta. Contudo, quando Jesus pegou o rolo de Isaías e o leu
na
sinagoga de Nazaré, Ele separou com muita habilidade as duas partes
dessa
profecia mista. Ele parou de ler no meio da profecia com as palavras
"Pregar o
ano aceitável do Senhor", então proclamou "Hoje se cumpriu esta Escritura
em vossos ouvidos", Lucas 4:18-21. Não se pode dizer que o restante dessa
profecia se cumpriu naquele dia, nem que tenha ainda se cumprido, depois de
quase dois mil anos. Mas com certeza se cumprirá no devido tempo.
Essa Lei da Dupla
Referência, no que se refere a indivíduos, encontra numerosos exemplos nos
livros proféticos. Principalmente em Daniel, vemos o Anticristo definitivo
várias vezes retratado sob as figuras imediatas e locais do rei da Babilônia,
do rei da Grécia, do rei da Síria, etc. Ninguém pode negar o cumprimento que
ocorreu logo depois que a profecia foi dita. Mas também seria melhor não
ignorar o fato de que essas mesmas profecias têm um segundo, ou até mesmo
maior, cumprimento que ainda virá a se cumprir nos últimos dias na pessoa do
Homem do Pecado.
Nós
nos arriscamos a
citar ainda outro exemplo de uma referência dupla no que é dito acerca
de um
indivíduo. Em Ezequiel 28, se faz referência ao "rei de Tiro" nos
versículos 11-19, e essas palavras sem dúvida tiveram um cumprimento
parcial em algum homem que ocupou essa
posição e manteve esse título. Contudo, a linguagem vai além do que se
poderia
aplicar a algum homem, pois este é chamado de "o querubim ungido", v.
14, "querubim protetor", v. 16, títulos que jamais são dados a ninguém,
exceto alguns do
exército celestial. E é mencionado que ele esteve no Éden, o jardim de
Deus, v.
13. Obviamente, deve haver uma dupla referência nesses versículos: uma a
um
mero homem, a outra ao próprio Satanás.
Tendo dito tudo isso, é
necessário soar um aviso contra o desejo inato de sensacionalizar a Palavra de
Deus tentando descobrir coisas secretas. Que nenhum estudante da Bíblia seja
culpado de tentar manufaturar algum cumprimento secundário de um evento
histórico. O único curso seguro é apegar-se somente a um cumprimento profético
secundário onde textos posteriores declaram que existe tal cumprimento. Caso
contrário, pode-se facilmente cair no engano de Orígenes de espiritualizar o
que foi designado para ser aceito só literalmente. |