A Lei do Dispensacionalismo
ESTUDOS
EM
HERMENÊUTICA BÍBLICA
Ou, Leis Básicas de Interpretação da Bíblia
Pr. Davis W.
Huckabee
A
palavra "dispensação"
deriva-se de um termo latino que significa "administração" ou
"gerência", e se
refere ao método divino de lidar com a humanidade e de administrar a
verdade em
diferentes períodos de tempo. Ninguém consegue ler as Escrituras sem ver
que
Deus tem lidado com o homem em algumas épocas diferentemente do que Ele
lidou em outras. O motivo disso é que há várias dispensações no modo
como Deus lida com a humanidade. Estamos
agora vivendo no que é comumente chamado "a Dispensação da Graça",
embora não seja
um termo bem escolhido. Pela confissão da maioria das pessoas que são
sãs no
plano da salvação, Deus sempre lidou em graça com o homem, começando no
Jardim
do Éden imediatamente depois que Adão e Eva caíram. "A Dispensação da
Igreja" é
uma terminologia mais adequada para a nossa era atual, pois é mediante
as
igrejas do Senhor que Deus está presentemente lidando com a humanidade.
Quanto ao número de
dispensações em que se divide a história sacra, o número mais comumente sugerido
é sete, com cinco dessas já passadas, uma na qual estamos agora vivendo, e mais
uma que está ainda no futuro. J. R. Graves, em sua obra consideravelmente
volumosa sobre esse assunto (que aproveitaria a todos os cristãos ler), faz as
seguintes observações sobre essas sete dispensações.
"Ocorre-me que essas
foram indicadas ou preditas pelas divisões do tempo. O tempo que ele designou
para si para ajustar a habitação do homem ele dividiu em sete períodos, que ele
chamou de sete dias. Cada um marcava uma fase, ou passo, na grandiosa
realização, e o último marcava a consumação de tudo, e foi designado como um
dia de comemoração através do descanso. Esses dias eram sete, que é a
divisão divina do tempo. Observe como o número sete está presente em todas as
Escrituras Sagradas [Aí, o Dr. Graves faz uma lista de quase cinqüenta vezes em
que o número sete aparece de modo significativo nas Escrituras]" Todos eles
apontam para as Sete Dispensações, ou Eras, que Cristo designou para terminar
sua obra, e o grandioso e eterno Sabatismo com que sua obra conclui. O que
chamamos de tempo é aquele período designado por Cristo para a realização de
sua obra, e é dividido em eras, anos, meses, semanas, dias, horas; e, quando a
obra de Cristo se completar, o tempo não existirá mais, mas se perderá
numa eternidade sem limite". " The Seven Dispensations (As Sete
Dispensações), pp. 165, 166.
A
palavra "dispensação"
só aparece cinco vezes nas Escrituras em português, a saber, 1 Coríntios
9:17; Efésios 1:10; 3:2; 3:9; Colossenses 1:25. Nesses lugares a
palavra grega oikonomiaparece ter de preferência o significa de "mordomia", ou "a gerenciamento de
uma casa", como a mesma palavra grega significa em suas outras aparições em
Lucas 16:2, 3, 4. No entanto, a palavra grega aion, que aparece no Novo
Testamento um pouco mais de cem vezes, e é geralmente traduzida "mundo",
"eternamente" ou "sempre", é aceita comumente com o sentido de "era", "época"
ou "dispensação".
As seguintes Escrituras
mostram que há só esta era atual e outra que virá, restando apenas essas duas
eras antes do cumprimento de todas as coisas no grande programa de Deus. "E, se
qualquer disser alguma palavra contra o Filho do homem, ser-lhe-á
perdoado; mas, se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado,
nem neste século (grego aion = época) nem no futuro
(literalmente, "nem no vindouro")". (Mateus 12:32) "Que não haja de receber
muito mais neste mundo (grego kairos = tempo), e na idade
vindoura (grego aion = época) a vida eterna". (Lucas 18:30) "Acima
de todo principado, e poder, e potestade, e domínio, e de todo nome que se
nomeia, não só neste século (grego aion = época), mas também no
vindouro (de novo, literalmente "o vindouro")". (Efésios 1:21) Aí se vê uma
era ou dispensação presente e uma que está para vir.
Mas como tudo isso entra
na correta interpretação da Bíblia" Deve-se considerar esse assunto, pois
algumas coisas das Escrituras estão ligadas somente à determinada dispensação,
e se tentarmos interpretá-las em referência a outra, o resultado será muita
confusão. Algumas coisas são aplicáveis a todas as eras, pois elas são
princípios eternos de verdade e justiça. Assim, por exemplo, os princípios
apresentados no Decálogo ou Dez Mandamentos, embora tivessem sido registrados
pela primeira vez na dispensação mosaica, são de tal verdade moral obrigatória
que estão em vigor em todas as eras da história do homem. Está implícito em
Romanos 2:14-15 que essas leis sempre estiveram escritas no coração humano, até
mesmo antes que tivessem sido escritas em pedra no monte Sinai. Ninguém pode
anulá-las sob a alegação de que não pertencem à presente dispensação sem grande
prejuízo sendo feito a toda moralidade, e sendo a ordem moral praticamente
destruída. Ninguém viola a lei moral com impunidade, embora haja alguns ultradispensacionalistas
que afirmem que essas leis não estão mais em vigor para ninguém, a não ser para
os judeus.
Sem entrar num estudo de
todas essas dispensações, e descrevê-las nos mínimos detalhes, só gostaríamos
de observar que três ou quatro delas nos interessam no presente assunto. Havia
muitas coisas expostas sob a Dispensação Representativa, por exemplo, que eram
para instruir e preparar a nação de Israel para reconhecer seu Messias quando
Ele entrasse em cena. Conseqüentemente, essas coisas deixaram de existir, no
que se refere à obrigação de praticá-las, quando o Filho do Homem veio e as
cumpriu. As pessoas hoje não mais precisam praticá-las, e seu principal valor
hoje está em que elas evidenciam que Deus havia predito e prenunciado a vinda
de Seu Filho de modo que os homens estivessem sem desculpas por sua negligência
de reconhecê-Lo e recebê-Lo.
A morte do Ministério Representativo
foi revelada quando se rasgou o grande véu, que separava o Santo Lugar do
Santíssimo Lugar no momento da morte de Jesus, Marcos 15:37-38. Sobre isso há uma referência em Hebreus 10:18-20: "Ora, onde há remissão destes, não há
mais oblação pelo pecado. Tendo, pois, irmãos, ousadia para entrar no santuário,
pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou, pelo véu,
isto é, pela sua carne,". (Hebreus 10:18-20) O véu tipificava o corpo de
Jesus.
Essa e numerosas outras
Escrituras nos proíbem de fazer uma prática de coisas representativas em nossa
forma de adoração hoje, pois elas estavam limitadas ao período de tempo que
terminou com a morte de Cristo. Contudo, multidões, e até mesmo denominações
inteiras, ainda hoje incorporam algumas das coisas da dispensação representativa
em sua adoração nesta dispensação da igreja, o que só acaba mostrando a grande
importância de considerar as divisões e limitações dispensacionais em nossas
interpretações das Escrituras.
De
novo, alguns são
culpados de tentar transferir para essa dispensação coisas que tinham
uma
aplicação puramente judaica. Há muitas coisas que foram ordenadas a
Israel
exclusivamente de um modo nacional, mas que são às vezes aplicadas aos
crentes
hoje, como se ainda estivessem em vigor. Para citar apenas uma
ilustração. Muitas pessoas, julgando pelos costumes modernos, tentam
aplicar Deuteronômio 22:5 para as mulheres de hoje. Esse versículo diz: "Não haverá traje de homem na mulher, e nem vestirá
o homem roupa de mulher; porque, qualquer que faz isto, abominação é ao
SENHOR teu Deus". (Deuteronômio 22:5) Supõe-se erroneamente que Deus está aí ditando
moda, e não só isso, mas Ele quer que essa moda seja adaptada à moderna moda
americana. O uso dessa passagem é muitas vezes um pretexto para
judiar
diretamente das mulheres por vestirem conjunto de calças, e isso apesar
do fato
de que calças são muitas vezes mais decentes do que alguns estilos de
vestidos,
e daí, mais apropriadas. Mas o fato é que, em nenhuma parte das
Escrituras Deus
dita moda. Em vez disso, Ele manda que conformamos ao que é considerado
culturalmente decente. Em algumas culturas o que é considerado roupa de
mulher,
pode ser considerado roupa de homem em outra. Em alguns países tais como
a Escócia e a Grécia, saias escocesas, ou roupas como saias escocesas,
são roupas de
homens, enquanto em outros países, roupas como do tipo calça são usadas
mais
por mulheres do que por homens. Mas o uso muitíssimo comum desse texto
na
pregação evidencia uma arrogância que tentaria adaptar todas as pessoas
aos
costumes ocidentais modernos.
Como dissemos antes, não
há evidência de que ou aqui ou em outro lugar, Deus tenha alguma vez ditado
moda. O mais provável é que esse texto tenha a ver com o costume homossexual de
homens e mulheres transvestirem (usando roupas do sexo oposto), que é uma
questão moral, e Deus muitas vezes lida com questões morais nas Escrituras.
Isso seria uma exposição deliberada da rebelião de alguém contra a manifesta
vontade de Deus com relação à masculinidade e feminilidade. No entanto, a
questão não é a aparência exterior, mas a atitude interior do coração.
Os
que repreendem as
mulheres pelo modo como elas se vestem usam Deuteronômio 22:5. É
evidente que eles estão sendo incoerentes e hipócritas quando
consideramos que tais
pregadores jamais usam qualquer outro versículo nesse capítulo em sua
pregação.
É extremamente duvidoso que se possa achar algum pregador que não seja
culpado
de violar Deuteronômio 22:11, que diz: "Não te vestirás de diversos estofos de lã e
linho juntamente".
E em nossa época, há um número grande de moças que não são virgens quando se
casam, mas que nunca souberam de um líder batista liderando o apedrejamento das
tais. Mas veja o dever dos líderes de assumir a liderança nisso em Deuteronômio
22:13-21. E o capítulo é cheio de numerosas outras coisas que os pregadores
modernos não obedecem, de modo que de novo dizemos, que é incoerente e
hipócrita pegar o versículo 5 e usá-lo para açoitar membros de igrejas e, ao
mesmo tempo, ignorar todos os outros versículos.
Essa
questão não envolve
só o capítulo 22, pois todas as divisões de capítulos e versículos foram
feitas
pelo homem, e há muitas outras coisas em Deuteronômio que devem ser
aplicadas
na prática diária se 22:5 é aplicável. Há na verdade algumas coisas em
Deuteronômio que são apropriadas, pois nosso Senhor Jesus citou desse
Livro
mais vezes do que qualquer outro, e Ele próprio cumpriu o que foi
predito em 18:15, 18-19. Mas muitas das leis desse Livro eram leis
puramente nacionais, só para Israel, e
não se deve aplicá-las de outro modo.
Tentar obrigar os santos
do Novo Testamento a guardar as leis nacionais, dietéticas e cerimoniais do
Velho Testamento envolve a incapacidade de reconhecer a Lei do Dispensacionalismo,
e invariavelmente trará confusão e tenderá ao legalismo.
Muitos que afirmam ser
dispensacionalistas são realmente ultradispensacionalistas, e em vez de manejarem
"bem a palavra da verdade", como eles afirmam fazer, eles são culpados de bagunçarem
a Palavra, transformando-a numa salada. Ninguém tem desculpa para fazer isso.
Apesar disso, é verdade que há considerações dispensacionais que devem entrar
em nossa interpretação das Escrituras, e ninguém pode ser totalmente correto em
suas opiniões se ele não levar isso em consideração. |