A Lei do Sentido Comum
ESTUDOS
EM
HERMENÊUTICA BÍBLICA
Ou, Leis Básicas de Interpretação da Bíblia
Pr. Davis W.
Huckabee
O que se
quer dizer com essa lei é que onde certa palavra é usada nas Escrituras, deve-se
entendê-la em seu sentido mais comumente aceito em todo caso onde é possível. Pensando
um pouco perceberá a razão para essa Lei. Se Deus tivesse a intenção de dar uma
revelação de Si mesmo à humanidade, é esperado 1que Ele a daria em palavras que
o homem pudesse entender facilmente, e não encobrir o sentido em termos
misteriosos e desconhecidos. A Palavra de Deus é chamada de "revelação" (grego apokalupse),
porque revela Sua vontade e caminho ao homem. Se Sua palavra tivesse o objetivo
de esconder Sua vontade e caminho ao homem, teria sido chamada apocriypha
" algo escondido " que jamais é o caso. Conforme observamos antes, Deuteronômio
29:29 deixa claro que "As coisas encobertas são para o SENHOR,
nosso Deus; porém as reveladas são para nós e para nossos filhos,
para sempre, para cumprirmos todas as palavras desta lei". E o Senhor dá
testemunho de Sua determinação de revelar Sua verdade em outros lugares. "Certamente
o Senhor DEUS não fará coisa alguma, sem ter revelado o seu segredo aos seus
servos, os profetas". (Amós 3:7) Essas duas passagens assim mostram que o
que Deus revela ao homem é bem pertinente a ele, e o que é mantido em segredo
dele não tem nenhuma relevância para ele, nem é ele responsável por isso. A
obscuridade deliberada é impensável numa revelação.
Mas se
essas coisas são assim, então é óbvio que ao dar uma revelação de Sua vontade
ao homem, Deus não obscureceria deliberadamente o sentido dela, mas a
apresentaria nos termos mais claros necessários para o homem entendê-la. Se
fosse de outro jeito, não se poderia fazer com que o homem prestasse contas por
conhecê-la, pois até mesmo a lei humana reconhece o princípio, e declara que
nenhuma lei obscura tem alguma força obrigatória. Se cremos que a Bíblia é a
revelação de Si mesmo e Sua vontade ao homem, então devemos também crer que ela
será expressa em termos que o homem possa entender. E certamente indicam isso
as centenas de exemplos em que as Escrituras dizem "Então falou Deus todas
estas palavras", ou "veio a palavra do Senhor", e outras declarações
semelhantes que indicam que o que é entregue é compreensível àqueles a quem é
falado.
Por esse
motivo não temos a liberdade de entender qualquer palavra em qualquer sentido,
exceto seu sentido mais natural e comumente aceito, exceto em raras exceções,
que consideraremos mais tarde neste estudo. Alguém bem disse: "Se o sentido
comum de uma palavra faz sentido, então não busque outro sentido". A tolice de
fazer de outro jeito foi mostrada nos primeiros dias da história cristã, pois
até hoje o entendimento de muitas pessoas acerca das Escrituras foi arruinado pelas
interpretações loucas que certos antigos comentaristas da Bíblia aplicaram às
Escrituras. Orígenes (c. 185-254) de Alexandria, um dos tão chamados "Pais da
Igreja", popularizou a espiritualização até mesmo dos textos mais
simples e ensinando que eles sempre tinham algum significado misterioso e
oculto que não era óbvio ao crente comum. Seu método de descartar até os
ensinos mais claros foi seguido por alguns em todas as gerações. É claro, o ego
do pregador se sente bajulado se ele puder afirmar achar nos textos simples o
que não é evidente para ninguém mais, e isso explica, em grande parte, a
popularidade de tais meios não bíblicos de lidar com a Bíblia. Um desejo
orgulhoso de obter glória para si é sempre uma tentação para qualquer um,
inclusive pregadores. Tendo dito isso, deve-se reconhecer que há partes das
Escrituras que têm sentidos simbólicos ou representativos, pois o próprio
Senhor e Seus escritores inspirados às vezes mostram isso. Mas devemos ter o
cuidado de não inventar tais interpretações, e principalmente nunca ir atrás de
tal modo de interpretação que menospreze o sentido literal do texto.
Mais que
freqüentemente, a única razão para não se querer entender uma palavra ou texto
em seu sentido mais comumente aceito é que essa palavra ou texto entra em conflito
com preconceitos pessoais. Podemos usar como exemplo principal disso a
controvérsia que se travou durante os últimos quatro ou cinco séculos por causa
das palavras gregas que são traduzidas "batizar" e "batismo", na maioria das
versões do Novo Testamento. Durante os primeiros treze séculos ou mais dessa
era ninguém questionava o fato de que essas palavras gregas significavam o ato
de imergir ou imersão. Essas palavras sempre tinham a ver com a
introdução de alguém ou algo numa solução ou material penetrável. Era uma
verdade clara como o sol. Mas começando no século catorze muitas igrejas
começaram a se afastar da imersão como o modo correto da ordenança cristã como o
pré-requisito de ser membro da igreja. E quando os batistas da época as
desafiaram nessa questão, elas tentaram justificar seu afastamento pondo em
dúvida os significados comuns das palavras, e essa prática tem continuado até
hoje entre os desobedientes.
Contudo,
poucos eruditos religiosos de qualquer renome arriscarão sua reputação negando
que o sentido básico dessas palavras é de imergir, mergulhar, abluir-se ou
submergir. Quando este escritor estava preparando seu livro texto "Estudos
Acerca da Verdade da Igreja" alguns anos atrás, ele pesquisou literalmente
centenas de testemunhos dos léxicos gregos, acadêmicos gregos, comentaristas
bíblicos, professores de seminários, e outros com relação a esse assunto. Ele
descobriu que antes dos últimos cem anos aproximadamente, só dois nomes
importantes negavam que esse fosse o sentido mais comum de baptizo e baptisma.Um desses foi um conhecido teólogo que por sua própria confissão não era um
especialista em línguas. O outro era o renomado Léxico Grego Liddell e Scott.
Mas eles receberam tantas críticas de todas as áreas do Cristianismo por darem
"aspergir" como um sentido possível, que em sua edição seguinte, eles o
removeram completamente e não lhe fizeram nenhuma referência. Os acadêmicos sinceros
são compelidos a admitir que a imersão é o sentido principal dessas palavras.
Muitos
pregadores modernos, em seu esforço para justificar sua prática não bíblica de
aspergir ou derramar e chamar isso de batismo, têm tentado voltar atrás no
sentido secundário e metafórico dessas palavras gregas, que podem ser "cobrir
completamente". Mas até mesmo isso não lhes dá nenhum consolo ou ajuda, pois o
sentido metafórico ainda se baseia no sentido literal da palavra e não pode ser
oposto em sentido a ela. Em nenhum outro caso que conhecemos o sentido comum de
uma palavra é mais bem estabelecido, ou a tolice que acompanha o ato de se
afastar do sentido comum mais evidente, do que no caso do mandamento do
batismo. Assim, isso ilustra a grande importância na interpretação bíblica de perseverar
no sentido principal das palavras bíblicas.
Nem é o
batismo o único exemplo da violação desse princípio, pois a palavra grega que é
traduzida "igreja" (ekklesia) tem da mesma forma sofrido muito abuso,
resultando no que é quase mundialmente ensinado com um falso sentido. Essa
palavra grega deriva-se de ek, fora de, e kaleo, chamar. Como
verbo, significa convocar, e foi comumente usado desse jeito no grego. Como
substantivo, refere-se a "uma assembléia convocada", e jamais é usada no Novo
Testamento ou na versão grega do Antigo Testamento, nem nos apócrifos com
qualquer outro sentido. A idéia de uma igreja visível e universal nunca
foi apresentada até dois ou três séculos depois de Cristo, e quando foi
apresentada, veio de homens arrogantes e ambiciosos que desejavam ser senhores soberanos
sobre mais do que as assembléias locais. E mais incoerente ainda, a idéia de
uma igreja invisível e universal é de época bem recente, sendo inventada
nos dias da Reforma. Contudo, um cristão hoje será isolado como um completo
herético se ele apenas expressar dúvida acerca da "Igreja" sendo universal.
Essa questão é tratada extensivamente no volume um da mencionada obra do autor
acima.
Mas
dissemos que em raros casos seria justificável afastar-se do sentido principal
de uma palavra e aceitar um sentido secundário. Sob quais circunstâncias isso seria
assim" Somente se o sentido principal de uma palavra, se aceito, se chocasse
violentamente com alguma outra doutrina ou interpretação. Mas isso será um acontecimento
bem raro. Muito mais comumente, quando isso parece ser o caso, ver-se-á que é
um conflito inventado, feito a fim de justificar o ato de deixar o
sentido principal, ou então o conflito evidenciará que uma ou outra das duas
interpretações aparentemente em conflito é errônea.
E como
dissemos, tal exemplo em que temos justificação para deixar o sentido principal
em troca de um sentido secundário será bem raro. No entanto, isso ocorre em
raras ocasiões, mas mesmo então, tal troca jamais contradirá o sentido
principal, nem lhe será contrário, a menos que a palavra tenha um prefixo ou
uma partícula adversativa ligada a ela que a contradiga, que é comumente feito.
Mas isso confirma o sentido principal de uma palavra em vez de justificar um
afastamento do sentido.
Muitas vezes
supõem que a Bíblia foi escrita em tal linguagem técnica que as pessoas comuns
não podem entendê-la, e conseqüentemente que os únicos intérpretes confiáveis
da verdade bíblica são aqueles com um título de doutor. Na realidade, a verdade
é quase o oposto, pois as pessoas comuns, se nasceram de novo e são habitados
com o Espírito de Deus, geralmente entenderão as palavras das Escrituras em seu
valor mais aparente, e daí não buscarão ir além do sentido comum dos termos.
Por outro lado, os que são "doutores da lei" (e não estamos condenando a
educação nem os títulos em si) têm a tendência de ficar insatisfeitos
com o sentido básico de uma palavra, mas querem se aprofundar mais do que o
sentido superficial, e o resultado é que eles se inclinarão a ignorar o sentido
comum. A educação formal é boa, e todo cristão deve se esforçar para obter
tanto quanto puder. Mas a tragédia é que em muitos círculos religiosos, acham
erradamente que a posse de um título ou dois automaticamente signifique que uma
pessoa é um homem espiritual, e tal não é o caso. O mundo religioso está cheio
de religiosos sem salvação que têm muitos títulos elevados, mas não têm percepção
para entender a verdade espiritual. Independente de quantos títulos o homem
natural tenha, ele não entenderá a verdade espiritual, 1 Coríntios 2:14.
Às vezes o
próprio orgulho influencia o desejo de trazer indiferença ou questionamento do
sentido comum de uma palavra nas Escrituras, e isso já levou a alguns dos
maiores debates e conflitos sobre palavras. E é interessante que o grego logomacheode onde extraímos nossa palavra em português "logomaquia" (ser contencioso
sobre palavras) se acha no contexto imediato da admoestação de Paulo a Timóteo:
"Procura apresentar-te a Deus aprovado", etc., pois está escrito: "Traze estas coisas
à memória, ordenando-lhes diante do Senhor que não tenham contendas de
palavras, que para nada aproveitam e são para perversão dos
ouvintes." (2 Timóteo 2:14) Aliás, Paulo várias vezes avisa contra
contendas
acerca de palavras, 2 Timóteo 2:23; Tito 3:9. E ele declara que essas
contendas acerca de palavras brotam do orgulho e ignorância. "Se alguém
ensina alguma
outra doutrina e se não conforma com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus
Cristo e com a doutrina que é segundo a piedade, é soberbo e nada sabe, mas
delira acerca de questões e contendas de palavras, das quais nascem invejas,
porfias, blasfêmias, ruins suspeitas, contendas de homens corruptos de
entendimento e privados da verdade, cuidando que a piedade seja causa de ganho.
Aparta-te dos tais". (1 Timóteo 6:3-5)
E não
desejamos ser mal-entendidos aqui, como se fossemos contra a formação
educacional, ou o estudo das línguas originais ou os sentidos mais profundos das
palavras bíblicas, pois essas são todas boas coisas, e devem ser buscadas. Mas
deveria ser evidente para todos que as palavras da revelação de Deus devem ser
adequadas para os ignorantes, e não os sábios, quando consideramos que ""não
são muitos os sábios segundo a carne" que são chamados". (1 Coríntios 1:26) Pois ao chamar Seu povo do meio dos ignorantes, fracos e ignóbeis, Deus deve
necessariamente escolher as palavras da chamada em termos simples e fáceis de
entender. Foi por esse motivo que Paulo não deu muita importância para falar
línguas estrangeiras entre os coríntios, pois não lhes era proveitoso, a menos
que se empregassem palavras fáceis de entender. "Assim também vós, se com a
língua não pronunciardes palavras bem inteligíveis, como se entenderá o que se
diz" porque estareis como que falando ao ar." (1 Coríntios 14:9)
Ao interpretar
as Escrituras, devemos primeiramente reconhecer que elas são uma revelação da
Pessoa e vontade de Deus ao homem, e portanto são expressas em terminologia
humana comum. Não devemos desnecessariamente complicar sua mensagem aplicando
sentidos incomuns a suas palavras. O orgulho do intérprete da Palavra poderá
ficar exaltado se parecer que ele tem a capacidade de descobrir muitas verdades
misteriosas a partir de uma Escritura aparentemente simples e aberta. Contudo,
isso não servirá para a edificação dos ouvintes comuns, o que é o mais
importante. Que os frutos amargos do método de Orígenes de espiritualizar até
mesmo os textos mais simples das Escrituras nos sejam de aviso contra tais
práticas.
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