A LEI DO CONTEXTO
ESTUDOS
EM
HERMENÊUTICA BÍBLICA
Ou, Leis Básicas de Interpretação da Bíblia
Pr. Davis W.
Huckabee
A palavra "contexto"
significa literalmente "tecer junto", e lida com aquilo que vai antes e depois
de uma palavra ou passagem específica das Escrituras. Assim, o contexto de um
texto das Escrituras são os versículos ao redor que têm relação com o mesmo
assunto ou tema. Um pastor amigo, o irmão Charles Whaley, explicou bem quando
disse: "Não há nenhum texto separado do contexto". Danos incalculáveis foram
cometidos por pessoas que tiraram um texto ou frase de seu contexto, e o
interpretaram sem referência aos versículos ao redor.
Citamos um exemplo para
mostrar a tolice disso, e embora poucas pessoas iriam ao extremo que o nosso
exemplo foi, mas algumas interpretações são totalmente perigosas por sua
plausibilidade aparente. Um pregador, que tinha uma séria aversão a mulheres
usando coque, determinou pregar uma mensagem contra esse costume. Mas não
conseguindo encontrar um texto que condenasse essa prática, ele escolheu quatro
palavras de Mateus 24:17, tirou-as de seu contexto e pregou sobre o tema "Removendo
o Coque". A referência a essa passagem mostra que não há a referência mais
remota a cabelo, moda feminina, nem mesmo ao sexo feminino em alguma maneira.
No entanto, a passagem serviu para justificar o preconceito. E lamentavelmente,
às vezes tal tolice é ainda praticada por homens que se preocupam mais com suas
opiniões do que com a exposição correta da Palavra de Deus.
Um
dos fatores básicos
na Inspiração lida com esse assunto, conforme lemos em 2 Pedro 1:20-21:
"Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de
particular
interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de
homem
algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito
Santo". Observe-se
primeiramente que profecia aqui e em outras partes das Escrituras não se
restringe a eventos futuros que são preditos. A palavra grega propheteia significa
literalmente proclamar = pregar, e esse é o sentido mais comum nas
Escrituras quando essa palavra é usada.
Isso "significa a
proclamação da mente e conselho de Deus (pro, para frente, phemi,
falar: veja PROFETA)" Embora boa parte da profecia do Antigo Testamento
seja
puramente de previsão, veja Miquéias 5:2, por exemplo, e confira João
11:51, a profecia não é necessariamente, nem mesmo principalmente,
prognosticadora. É uma
declaração daquilo que não se pode conhecer por meios naturais, Mateus
26:68, é a proclamação da vontade de Deus, quer com referência ao
passado, ao presente ou ao
futuro, veja Gênesis 20:7; Deuteronômio 18:18; Apocalipse 10:11; 11:3". "
W. E. Vine, Expository Dictionary of New Testament Words (Dicionário
Expositor do Novo Testamento), Vol. III, P. 221.
Alguns
sustentam de modo
errôneo que o versículo 20 proíbe qualquer indivíduo de decidir por si o
que
alguma Escritura significa. Essa é principalmente a posição do
catolicismo que
tem, até em tempos bem recentes, proibido seu povo de até ler a Bíblia,
muito
menos determinar seu sentido, mas eles recebiam ordens de deixar a
"Igreja"
decidir o sentido, e deixar a "Igreja" dizer ao povo no que crer.
Contudo, esse
não é o sentido desse versículo, conforme a tradução literal revela.
Literalmente
essa posição diz: "Nenhuma proclamação da Escritura é da sua própria e
livre
interpretação", e a razão é dada no versículo 21, "porque a proclamação
nunca foi produzida por vontade de homem algum", etc. Deus deu as
Escrituras a Seus
porta-vozes escolhidos, e Ele deve dar a interpretação delas. Mas ao
dizer que
nenhuma Escritura é da sua própria e livre interpretação, sugere-se que
não se
deve tirar nenhuma Escritura de seu contexto e interpretá-la como se
estivesse
totalmente sozinha, sem nenhuma relevância para quaisquer outras
Escrituras. O
contexto muitas vezes "desatará" o nó de algo que de outro jeito seria
impossível entender. O erro que muitas pessoas cometem é não interpretar
uma
Escritura de acordo com seu contexto.
É fato que a maioria das
teorias prediletas baseia-se em perversões do verdadeiro sentido e
aplicabilidade do texto, pois as teorias que são sustentadas com mais
tenacidade e apresentadas com paixão, são geralmente as teorias com menos
comprovação nas Escrituras. Essa parece uma das fraquezas característica da
carne " dar importância maior ao que tem importância menor.
Pedro
advertiu contra esse
próprio problema " torcer as Escrituras para tentar forçá-las a dizer o
que não
dizem. Depois de falar das epístolas de Paulo, e das verdades profundas
que
elas contém, ele disse: ""que os indoutos e inconstantes torcem, e
igualmente
as outras Escrituras, para sua própria perdição". (2 Pedro 3:16) Deve-se
observar de passagem que Pedro foi inspirado a colocar as epístolas de
Paulo no mesmo
nível das "outras Escrituras". Isso também se aplicaria àquilo que o
Espírito
Santo havia movido Pedro a escrever.
As palavras que Pedro
usou aqui são instrutivas. "Torcer" traduz strebloo, que é a forma
verbal de um substantivo que se referia a um instrumento de tortura, e assim se
refere à tortura com um sarilho, ou torcer até desconjuntar. É isso o que se
tenta fazer com uma Escritura quando se não quer entendê-la em seu contexto e
deixá-la dizer o que tinha o propósito de dizer. "Perdição" é o sentido literal
da palavra aqui usada, mas também é traduzida "destruição", pois muitas vezes
tem a conotação de destruição espiritual. E essa é evidentemente a idéia
aqui, conforme indica o seguinte versículo: "Vós, portanto [ele está
tirando uma conclusão a partir do versículo precedente], amados, sabendo isto
de antemão, guardai-vos de que, pelo engano dos homens abomináveis, sejais
juntamente arrebatados, e descaiais da vossa firmeza". Perverter uma
Escritura a fim de se estabelecer uma interpretação pessoal é uma
característica dos homens maus, e tem sua própria maldição, pois entorta o
entendimento que o indivíduo tem da verdade e estabelece a falsidade em seus
pensamentos. Mas os verdadeiros santos podem também se desviar nesse assunto,
pois todos temos ainda uma mente carnal que deve ser mantida em submissão ao
Espírito Santo.
Se
as pessoas apenas dessem
maior atenção ao contexto de qualquer Escritura que estão considerando,
noventa
por cento das heresias e interpretações incorretas que atormentam o
Cristianismo
seriam eliminadas. A maioria das interpretações erradas surge do fato de
haver
uma visão muito limitada do assunto sob discussão, e também por causa da
tentação de interpretar as Escrituras à luz das modernas crenças e
práticas. O
escritor se arrisca a citar outro exemplo, erro no qual ele próprio já
caiu em
determinado tempo. Há uma teoria sobre a "vida intermediária", que
sustenta que
na morte a pessoa não vai para o céu nem para o inferno, mas em vez
disso vai
para um lugar intermediário de confinamento até a vinda de Cristo. Em
determinado tempo esse escritor apoiava esse erro, e uma das Escrituras
em que
ele se escorava para provar isso era Atos 2:34. "Porque Davi não subiu
aos céus". Entendia-se que essa passagem provava que deve haver um
"estado intermediário", pois Davi estava morto havia muito tempo, porém
ele não
havia subido ao céu. Contudo, o erro se baseava na ignorância do
contexto.
Lendo
o contexto, logo
ficamos sabendo que o assunto que está sendo discutido aqui não é a
"vida
intermediária", nem é de forma alguma o estado da alma que está em
debate. O apóstolo está aqui argumentando que Jesus na verdade era o que
Ele afirmava ser, e
que o Pentecoste era prova do fato de que Jesus realmente havia
ressuscitado
dos mortos e subido fisicamente ao Pai, conforme já havia sido predito
em profecia. A ressurreição física de Cristo é o assunto aqui, pois Davi não havia subido
fisicamente ao céu, de modo que a profecia não poderia se referir a ele. Um
conceito pré-formado envolvendo a teoria do estado intermediário permaneceu com
esse escritor durante três ou quatro anos, impedindo-o de entender corretamente
essa maravilhosa passagem, mas quando ele a leu em contexto, a verdade
finalmente irrompeu. Isso fez com que esse escritor ficasse mais consciente da
necessidade de observar o contexto inteiro em qualquer passagem antes de
aplicar sobre ela alguma interpretação dogmática. Desde então, com o passar dos
anos escrevendo comentários acerca de quase todos os versículos do Novo
Testamento, esse escritor constatou repetidamente que entender dentro do
contexto inteiro quase sempre nos dá uma percepção mais reta de qualquer
versículo.
A pregação expositiva
era o tipo mais comum achado no Novo Testamento, e é claro que essa pregação
envolve pegar uma parte das Escrituras e examiná-la, em vez de pegar só um
texto ou tópico e desenvolver uma mensagem em torno dele. Por esse motivo, a
pregação expositiva geralmente lida com uma parte maior das Escrituras do que
lida com qualquer outra forma de pregação, e é pois mais fiel ao contexto de
qualquer dado versículo do que qualquer outra forma de pregação. Assim essa
pareceria ser a forma ideal de pregar a Palavra. No entanto, a pregação tópica
e textual é também importante e muitas vezes necessária, mas devemos sempre
considerar o contexto.
Mas
podemos e devemos aplicar
para todo o nosso estudo esse mesmo princípio e sempre fazer questão de
estudar
o contexto inteiro de qualquer versículo, até mesmo quando envolve
vários
capítulos. E todo o nosso esforço impedirá a aplicação de uma
interpretação
errônea num versículo isolado. O evangelismo popular que usa "Caminhando
em
Romanos" erra nesse aspecto, pois pega Romanos 10:13 e constrói uma
pirâmide invertida em cima desse único versículo, com pouca ou nenhuma
atenção
ao contexto. É gloriosamente verdade que "Quem invocar o nome do Senhor
será
salvo". Mas há nove capítulos e meio de contexto antes desse versículo
que
precisamos entender para que não lhe apliquemos uma interpretação
totalmente
errônea. A negligência de levar em consideração os capítulos de um a
três de
Romanos deixará os homens ignorantes da depravação total de todos os
homens de
modo que eles não perceberão sua necessidade. E sem conhecimento de
Romanos 3:24-5:1 os homens permanecem ignorantes da necessidade absoluta
da redenção que existe única e
completamente em Cristo. E se os homens não perceberem que essa redenção
é
aplicada unicamente pela graça soberana, Romanos 5:20-21, eles sentirão
uma auto-suficiência que os impossibilitará de sentir a necessidade de
invocar o Senhor. É fácil obter profissões de fé se um Evangelho
pervertido e
incompleto for apresentado, mas a negligência de apresentar toda a
verdade condenará
o pecador para sempre, e fará com que o pregador descuidado seja culpado
do
sangue dos homens, Atos 20:26-27.
O contexto determinará,
na maioria dos casos, o assunto de qualquer versículo, pois há geralmente um
discurso conectado. A única exceção é o Livro de Provérbios que, conforme seu
título sugere, é uma coleção de ditados curtos sobre muitos assuntos. Contudo,
até mesmo em Provérbios há às vezes uma continuidade de assunto através de
vários versículos ou, num exemplo, vários capítulos (o assunto de "Sabedoria" é
bem proeminente em vários capítulos).
As Leis até agora
consideradas estão todas inter-relacionadas, pois a Lei Um diz: "Deus deu uma
revelação"" A Lei Dois pergunta: "Sou submisso à revelação de Deus"" Então a
Lei Três pergunta: "Qual é o sentido dos termos usados"" A Lei Quatro então
pergunta: "Quais as maneiras em que os termos são usados"" A Lei Cinco
pergunta: "Quais a leis gramaticais que governam os termos usados"" Enquanto a
Lei Seis pergunta: "Qual é o assunto do contexto em que está esse versículo""
Tudo isso é muito importante na hora de determinar a interpretação correta das
Escrituras, e onde essas leis são ignoradas ou violadas, não dá para evitar
erro e interpretações incorretas das Escrituras.
Todos os cristãos
precisam se preocupar com a interpretação correta da Palavra da Verdade, não só
por amor a si, pois todos devemos algum dia "comparecer ante o tribunal de
Cristo". (2 Coríntios 5:10), para dar "conta de si mesmo a Deus" (Romanos
14:12), mas por amor aos outros também. Nós todos temos influência sobre
outros, quer queiramos ou não, e por esse motivo devemos ser sãos na fé, do
contrário desencaminharemos outros. O erro doutrinário na vida de uma pessoa
pode não ter conseqüências tão sérias quanto tem em outros que seguem o exemplo
dessa pessoa, pois ela pode ter outras crenças que são sadias o suficiente para
impedi-la de se aprofundar no erro. Mas pode ser que seus seguidores não tenham
essas verdades para contrabalançar, e assim sejam mais ainda desencaminhados.
|