A LEI DO DESTINATÁRIO
ESTUDOS
EM
HERMENÊUTICA BÍBLICA
Ou, Leis Básicas de Interpretação da Bíblia
Pr. Davis W.
Huckabee
Essa lei requer que
consideremos de modo adequado quem, o que, quando, por que, etc., do assunto
sob estudo. A primeira coisa que se deve considerar sob essa lei é A quem se
dirige? Uma ilustração revelará a importância dessa lei. O mundo " sim, até
mesmo o mundo religioso " tem em termos práticos concordado unanimemente que o
caminho para o céu é pelas boas obras, mas nada é condenado com tanto vigor nas
Escrituras como essa idéia. "Eu publicarei a tua justiça, e as tuas obras, que
não te aproveitarão". (Isaías 57:12) "Mas todos nós somos como o imundo, e todas
as nossas justiças como trapo da imundícia;...". (Isaías 64:6) "Por isso nenhuma
carne será justificada diante dele pelas obras da lei,...". (Romanos 3:20) "...pelas
obras da lei nenhuma carne será justificada". (Gálatas 2:16) "Não
pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua
misericórdia, nos salvou"" (Tito 3:5) Essas e muitas outras passagens negam em
termos nada ambíguos a idéia de que o homem pode de algum jeito se salvar por
suas próprias obras. Isso sendo assim, de onde então é que vem a idéia tão
comum no mundo de que as boas obras têm algo a ver com o homem sendo salvo" Como
exemplo específico, é característica do homem natural querer confiar em si
mesmo, e não depender somente em Deus. E a idéia de que sua confiança em suas
próprias obras auxiliará na sua salvação vem porque, por negligência, ele não
considera a Lei do Destinatário ao interpretar as Escrituras.
As
Escrituras na verdade
admoestam certas pessoas a aprender "também a aplicar-se às boas obras,
nas
coisas necessárias, para que não sejam infrutuosos". (Tito 3:14)
Aqueles que
confiam em suas próprias obras para se salvarem cometem vários erros:
(1) Em nenhuma parte as pessoas recebem promessa de salvação pelas
obras. (2) Aqueles que foram assim admoestados já creram para a
salvação. (3) As "coisas necessárias" não são para a salvação, mas ao
serviço a Deus. (4) As obras são "frutos" exigidos que todo cristão vivo
deve produzir para a glória de Deus, conforme João 15:1-8, que se
refere somente aos que estão "em Cristo" = pessoas salvas. Daí, (5)
Aqueles que pensam que essas coisas se aplicam a eles se salvando por
suas próprias obras
violaram a Lei do Destinatário, e tentaram aplicar para si aquilo que
não tem
nenhuma aplicação para eles. A graça de Deus e as obras do homem são
totalmente
incompatíveis no que se refere à salvação. A salvação deve ser de um ou
de
outro, mas não pode ser de ambos, como mostra Romanos 11:6. E muitas
outras passagens declaram que a salvação é somente pela graça mediante
fé em Cristo,
mas nenhuma a baseia em obras humanas.
E
as Escrituras
seguintes, todas ordenando boas obras, foram também todas escritas para
ou por
pessoas que já foram justificadas pela fé em Cristo, e salvas pela
graça. "A
obra de cada um se manifestará; na verdade o Dia a declarará, porque
pelo fogo
será descoberta; e o fogo provará qual seja a obra de cada um. Se a obra
que
alguém edificou nessa parte permanecer [em Cristo, versículo 11], esse
receberá galardão [não a vida eterna]. Se a obra de alguém se queimar,
sofrerá
detrimento; mas o tal será salvo, todavia como pelo fogo". (1 Coríntios 3:13-15) Isso foi escrito "À igreja de Deus que está em Corinto, aos santificados
em Cristo Jesus, chamados santos, com todos os que em todo o lugar invocam
o nome de nosso Senhor Jesus Cristo, Senhor deles e nosso". (1 Coríntios 1:2) E até o versículo 15 acima mostra que a salvação não é a questão mencionada das
obras, pois aqueles cujas obras se queimaram são, apesar disso, salvos.
Obviamente, então, as obras de um homem não têm relevância para a salvação.
Veja então a importância de se observar a Lei do Destinatário.
"Porque pela graça sois
salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem
das obras, para que ninguém se glorie; Porque somos feitura sua, criados
em Cristo Jesus PARA AS BOAS OBRAS, as quais Deus preparou para que
andássemos nelas". (Efésios 2:8-10) Aqui, obras devem ser o resultado e
fruto
da salvação, não sua causa, pois como mostra o versículo 1, até que o
homem tenha sido espiritualmente ressuscitado " vivificado " ele está
espiritualmente
morto, e assim incapaz de fazer qualquer coisa espiritual, exceto se
deteriorar
mais. Além disso, qualquer obra que é feita por motivos egoístas perde
seu
valor aos olhos de Deus, conforme Jesus ensinou em Mateus 6:1, 5, 16,
mas os homens professam fazer essas boas obras a fim de serem salvos, que é
uma razão egoísta.
"Fiel é a palavra, e
isto quero que deveras afirmes, para que os que crêem em Deus procurem
aplicar-se às boas obras; estas coisas são boas e proveitosas aos homens".
(Tito 3:8) Essa referência a obras claramente se limita aos crentes, ou pessoas
salvas, e eles são os únicos para os quais as boas obras são proveitosas, como
uma comparação com Isaías 57:12 mostra.
Talvez
de todas as
passagens em que se confia para ensinar salvação pelas boas obras, Tiago
2:14 seja a favorita. "Meus irmãos, que aproveita se alguém disser que
tem fé e não tiver as
obras" Porventura a fé pode salvá-lo"" Aqueles que vêem esse texto como
ensinando salvação pelas obras do homem não só violam a Lei do
Destinatário,
mas também a Lei do Contexto. Por sete vezes antes disso, nesse livro, a
palavra "Irmãos" aparece, e isso é quase sempre uma evidência de uma
declaração
sendo dirigida aos cristãos. Mas evidência ainda mais forte do que essa,
se
referindo a crentes, se encontra em Tiago 2:1, onde eles são admoestados
a ter "a fé de nosso Senhor Jesus Cristo", e 2:5, onde se diz que eles
são "ricos em fé". O contexto de Tiago 2:14 mostra que Tiago estava
simplesmente mostrando que obras serão o fruto natural da fé genuína
em Cristo, que a verdadeira fé não é uma fé morta, mas uma fé viva, e
que a fé
verdadeira será justificada aos olhos do homem só pelas boas obras. Não
é exatamente qualquer tipo de fé que é indicada aqui, pois a tradução literal
do versículo 14 é ""pode essa fé salvá-lo"" Isso é, uma fé que não tem
obras que confirmem, pois tal é uma "fé morta", versículo 26.
Outra
coisa envolvida na
Lei do Destinatário é se determinada declaração foi escrita apenas à
geração
então viva ou se tem aplicação para gerações futuras. 1 Pedro 1:10-12
sustenta essa questão: "Da qual salvação inquiriram e trataram
diligentemente os
profetas que profetizaram da graça que vos foi dada, indagando que tempo
ou que ocasião de tempo o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava,
anteriormente testificando os sofrimentos que a Cristo haviam de vir,
e a glória que se lhes havia de seguir. Aos quais foi revelado que, não para
si mesmos, mas para nós, eles ministravam estas coisas que agora vos
foram anunciadas ""
Um dos erros comuns que
muitos professores liberais e modernistas fazem é presumir que os profetas do
Antigo Testamento geralmente falavam só para sua própria época, e com relação
somente às questões locais. Por isso, muitos deles tentam roubar todos os
crentes posteriores do consolo de muitas das antigas promessas que Deus deu. É
claro, o problema deles é que eles têm um deus bem pequeno, fraco e ignorante
que não se pode permitir que seja onisciente, onipresente e onipotente, e assim
não pode falar a qualquer geração, exceto a uma geração que pode observar e
reagir na época. Mas tal não é o Deus das Escrituras.
Vê-se que a Lei do
Destinatário é muito importante na interpretação bíblica, pois se tentarmos
aplicar uma Escritura a alguém a quem não se aplica, o resultado poderá ser só
confusão. Mas de novo, deve-se considerar essa Lei a partir do ponto de vista do
que se fala, pois se aplicarmos uma Escritura a algum assunto ao qual não
se aplica, e ao qual não tem nenhuma relevância, o resultado será uma
interpretação incorreta dela. Pode-se ilustrar isso pelo esforço dos
pedobatistas para arrancar das Escrituras uma confissão da legitimidade do
batismo infantil quando as Escrituras não falam disso em parte alguma. T. P.
Simmons bem diz disso:
Com exceção do alegado
batismo de bebês em batismo de família, que não trataremos no momento, não há
nas Escrituras a mínima semelhança de indício de que bebês tenham em alguma
ocasião sido batizados. Já se disse de modo impressionante que passagens que
são usadas pelos defensores do batismo infantil caem em duas categorias. Uma categoria
menciona batismo, mas não menciona criancinhas. Outra categoria
menciona criancinhas, mas não menciona batismo. Uma terceira categoria
não menciona nem criancinhas nem batismo". " A Systematic Study of
Bible Doctrine (Um Estudo Sistemático da Doutrina Bíblica), p. 437, Edição
em Português, 1985.
Se tentarmos forçar uma
Escritura a dizer algo que não estava na mente do Escritor Divino ao dar essa
Escritura, então o resultado é que essa Escritura será distorcida de seu
contexto, e arrancada de sua harmonia com todo o resto da Palavra. A
conseqüência só poderá ser má interpretação e confusão para todos os que
aceitarem essa interpretação distorcida. Alguém disse muito bem: "Devemos
deixar as Escrituras dizerem o que pretendem dizer".
Finalmente, essa Lei do
Destinatário também tem a ver com a pergunta: Quando ou Sob que
circunstância a Escritura em questão foi dita" Pois circunstâncias
podem
ter um grande efeito no sentido de um versículo ou passagem das
Escrituras.
Podemos ilustrar isso de um evento na vida de Paulo. Em 1 Coríntios 2:2
Paulo declarou: "Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus
Cristo, e este
crucificado". Algumas pessoas, não considerando as circunstâncias
presentes,
têm considerado isso como justificando-as em pregar nada de natureza
doutrinária em ocasião alguma, mas como incentivando só mensagens
evangelísticas. Mas tal não era a intenção de Paulo nem era isso a sua
prática,
pois ele pregava mensagens doutrinárias bem fortes, até mesmo para os
coríntios
carnais. As circunstâncias do escrito dessas palavras mostram que quando
Paulo foi
a Corinto pregar o Evangelho, ele estava no ponto mais baixo da sua vida
ministerial, pois ele havia acabado de ter um dos retrocessos mais
graves de sua
vida inteira. Uma comparação de 1 Coríntios 2 com Atos 17:16-18:1 revela
que enquanto estava em Atenas antes de chegar a Corinto, Paulo havia
pregado o
Evangelho. Mas ele havia evidentemente tentado pregá-lo aos atenienses,
não em
sua simplicidade local, mas em termos intelectuais contemporâneos de
acordo com
o intelectualismo dos atenienses. Ele chegou ao ponto de citar poetas
pagãos
para confirmar o Evangelho, Atos 17:28-29. O resultado foi que em
Atenas, a
pregação de Paulo foi menos bem sucedida do que em qualquer outro lugar
em que
ele pregou. Foi, aliás, quase um fracasso deprimente, pois só um punhado
de pessoas
se converteu. E se houve um número suficiente para que se organizasse
uma
igreja ali, jamais se faz menção a ela. Isso foi o que fez com que Paulo
escrevesse a declaração de 1 Coríntios 2:2. Ele simplesmente queria
dizer que
de agora em diante quando ele pregasse o Evangelho, seria na
simplicidade do
Evangelho, e não "com sublimidade de palavras ou de sabedoria", como foi
feito
aos intelectuais de Atenas, 1 Coríntios 2:1.
Uma boa parte do Novo
Testamento faz citações do Antigo Testamento, e só é possível compreendê-lo de
forma plena se considerarmos as circunstâncias do texto original. Portanto, é
muito importante no esforço para interpretar qualquer passagem das Escrituras
considerar as circunstâncias presentes no momento em que a declaração original
foi entregue. |